Elicitar requisitos: o pedido nem sempre é a necessidade
Peter Mello ·
Em uma linha de transmissão em construção, o escritório de planejamento pede um painel novo para acompanhar a montagem das torres. O painel é entregue em seis semanas, com gráficos e filtros por trecho. No campo, o encarregado continua anotando a montagem em papel e mandando foto pelo WhatsApp no fim do dia, porque boa parte do traçado não tem sinal. O painel funciona. O dado é que continua chegando dois dias depois.
O pedido de quem encomenda nem sempre coincide com a necessidade de quem executa.
O Guia PMBOK trata desse trabalho no processo de coletar requisitos, que determina, documenta e gerencia as necessidades das partes interessadas para que o projeto atinja seus objetivos. A palavra elicitar ajuda a entender o cuidado. Não se trata de anotar pedidos. Trata-se de trazer à tona necessidades que, muitas vezes, a própria pessoa ainda não colocou em palavras.
No lançamento do Pandora Solver v1.0, essa etapa começou com uma constatação. A visão de Peter sobre o motor de otimização não bastava para dizer o que o produto precisava fazer. Foi preciso sentar com quem vive o projeto todos os dias: o planejador de obra, o engenheiro de campo e o controller financeiro. As conversas partiram da rotina de cada um, e não de uma lista de funções para validar.
Muita coisa que parecia óbvia no papel caiu depois dessas conversas. Outras necessidades apareceram sem que ninguém da equipe tivesse pensado nelas, na fala de quem tentava controlar um projeto com planilha, papel e mensagem de celular.
É importante frisar que elicitar não termina na entrevista. A outra metade do processo é analisar, separando a necessidade da solução que a pessoa sugeriu. Quando o engenheiro de campo pede um botão para enviar foto, a necessidade por trás pode ser outra: comprovar que a etapa foi concluída antes da medição.
Percebe-se, na prática, que a saída mais útil desse processo costuma ser a menos lembrada: a matriz de rastreabilidade. Ela liga cada requisito a quem o pediu e, mais adiante, à entrega que o atende. Sem ela, a conversa sobre o que entra na primeira versão vira disputa de memória. Decidir o que entra agora e o que fica para depois é o assunto do próximo capítulo.
No Pandora Solver, o Fio Digital responde a uma necessidade que se repete nessas conversas: o dado de campo existe, mas está espalhado entre planilha, papel e mensagem. A plataforma conecta essas fontes e leva a informação até a camada de decisão, sem depender de alguém lembrar de repassá-la.
Este texto não pretende esgotar o tema. Ouvir três perfis em um lançamento de software é diferente de ouvir dezenas de frentes de serviço ao longo de um traçado de centenas de quilômetros. O que se mantém é a ordem: primeiro a necessidade de quem executa, depois a forma da solução.